terça-feira, 26 de outubro de 2010


O tão elogiado O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA (THE TRUMAM SHOW), filme de Peter Weir (autor de grandes filmes como O ANO EM QUE VIVEMOS EM PERIGO, A TESTEMUNHA e SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS) é uma parábola, uma metáfora que comporta várias leituras.

O roteiro do filme mostra como a vida de Truman foi transformada numa novela que está no ar desde o momento de seu nascimento e que é vista mundialmente. Truman ignora que sua vida é uma ficção planejada minuciosamente pelos criadores do programa, representados por Christof.
Uma tese sustentada pelo filme seria como a televisão invade inteiramente a subjetividade, confunde público e privado, aprisiona os sujeitos numa vida alienada, ditada pelos valores do mercado, onde a felicidade está equacionada à posse de bens de consumo e a própria identidade pessoal se esfuma frente às identidades por ela fornecidas das, especialmente aquelas veiculadas pela publicidade, que forjam imagens de masculinidade ou feminilidade, de sucesso e triunfo sempre caudatário do consumo.

Mas não seriam só as crianças as vítimas do televisor: é o mundo dos adultos que, no filme, seria dominado pelo show de Truman. Vemos que são os adultos os que ficam plugados na telenovela, validando com sua assistência enlouquecida e acrítica a evolução de uma experiência alucinada de clonagem humana.

Em outras palavras, a história de Truman mostra a passagem entre a alienação no desejo do Outro e a assunção do próprio desejo, o estabelecimento da própria subjetividade.

Em TRUMAN, como este sistema narcísico começa a ruir na hora em que Truman se interessa efetivamente, espontaneamente por uma mulher. É a emergência de seu próprio desejo, não mais aquele decorrente da manipulação externa. Truman estabelece sua relação exogêmica pela escolha da mulher estranha ao meio endogâmico, cuja imagem vai organizando aos poucos, numa colagem de lembranças e afetos, até constituir um objeto amoroso (objeto a, fonte de desejo?). É interessante notar como o acesso a essa mulher é severamente reprimido, como vemos no encontro na praia, quando ela é sumariamente levada por homens. Seria uma menção à interdição edípica, que organiza a saída primeira do narcisismo, a segunda se daria na adolescência.

Muito bem, se não corremos o perigo de UMA única rede nos dominar, persiste um perigo ainda maior, a hidra de mil cabeças, dos muitos canais a nossa disposição, ou que dispõem de nós, diria TRUMAN, o filme de Weir. Ótimo filme eu recomendo, Supostamente as boas análises são aquelas mais demoradas. Demorei mas postei...

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